Uma cadeira de direção de cinema com a logo da OTW e as palavras OTW Guest Post

Guest Post para a OTW: Júlia Dariva

A cada mês, a OTW (Organização para Obras Transformativas) publica nas nossas páginas de notícias um post escrito por uma pessoa convidada para apresentar uma perspectiva externa sobre a OTW ou outros aspectos do fandom. Esses posts expressam exclusivamente a opinião individual de quem os criou e não expressam necessariamente a visão ou as diretrizes da OTW.

Júlia Dariva é graduanda no curso de Letras Inglês na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atualmente em seu terceiro ano como bolsista de pesquisa, seus interesses têm como foco as intersecções entre obras de fãs, Teoria Queer e Linguística. Nesse texto, Júlia fala sobre seu artigo na edição n.º 35 da Transformative Works and Cultures – TWC (Obras e Culturas Transformativas).

Como você ouviu falar de fandom e obras criadas por fãs?

Eu não tenho certeza se isso era algo que existia fora do Brasil também, mas quando eu era uma pré-adolescente no final dos anos 2000, nós usávamos uma rede social chamada Orkut, que funcionava mais ou menos como o Facebook, eu acho, no sentido de que você tinha que criar um perfil para interagir com amigos e participar em comunidades. Havia comunidades para todos os tipos de coisas – desde "Detesto erros de digitassão" até "Eu nunca morri na minha vida" e "Eu nunca terminei uma borracha", esse tipo de coisa – e as comunidades de que você fazia parte apareciam no canto inferior do seu perfil, então o que você escolhia fazer parte era uma forma de se descrever pros seus amigos.

Entre as comunidades das quais você poderia participar, muitas eram dedicadas à discussão sobre diferentes personagens, programas de televisão, celebridades, etc. Nessas, o pessoal participava em atividades de fãs como escrever meta, compartilhar suas edições de vídeos, role-playing e escrever fan fic, por exemplo. Havia comunidades dedicadas à escrita de fan fiction em geral também, onde você encontraria vários fandoms diferentes no mesmo lugar.

Embora alguns autores de fan fiction postassem seus trabalhos a partir dos seus perfis da vida real, acredito que a maioria de nós interagia nessas comunidades por meio do que a gente costumava chamar de "fakes", que eram basicamente perfis de RPG feitos de nomes aleatórios e fotos de personagens e / ou celebridades diferentes.
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Em memória do Yahoo! Grupos

Atribuição da imagem: O Fogo de Alexandria, xilogravuras de Hermann Göll, 1876, composição feita pela Equipe do Projeto Yahoo-Geddon.

Hoje, após 20 anos servindo as comunidades de fãs e além na internet, o Yahoo! Grupos foi encerrado. A decisão foi comunicada pela Verizon em 14 de outubro deste ano.

O Yahoo! Grupos foi uma combinação de fórum de discussão e lista de e-mails lançada em 1999 e rapidamente tornou-se um ponto de concentração de atividades de fãs. O Yahoo! Grupos e outros serviços similares permitiram que fãs customizassem suas experiências em fandom em níveis até então impossíveis, e os Grupos de fãs variavam em escopo de gênero a fandom, a ship, a personagens individuais.

Embora o Yahoo! Grupos tenha sido imensamente popular nos seus dias de glória nos anos 2000, ao longo do tempo foi perdendo seu público. A Yahoo passou a investir menos trabalho na manutenção do serviço e, por isso, perdeu-se muito da sua funcionalidade. Mais notavelmente, você pode se lembrar do anúncio da Verizon de 16 de outubro de 2019, de que todas as mensagens e arquivos do Yahoo! Grupos seriam apagados até 14 de dezembro de 2019 e que o serviço continuaria existindo apenas como uma lista de e-mails sem armazenar nenhum registro das mensagens e arquivos publicados nas listas.

Com tão pouco tempo para salvar quase 20 anos de publicações, imagens e outros conteúdos insubstituíveis, fãs, conservacionistas e responsáveis por moderação rapidamente se organizaram e entraram em ação. A Equipe de Arquivo tomou a dianteira nos esforços de preservação do Internet Archive, com algumas pessoas se voluntariando para escrever códigos para fazer o download de conteúdo e dúzias entrando em grupos para garantir que seu conteúdo seria resgatado. Paralelamente, a comunidade de fandom rapidamente formou o projeto Yahoo-Geddon e, com a ajuda de mais de 200 pessoas, começou a se concentrar no arquivamento de grupos de fandom usando as ferramentas desenvolvidas pela Equipe de Arquivo e PG Offline e se comunicando através de um servidor de Discord centralizado e um Tumblr. Junto a grupos preservacionistas como o Yahoo Groups Crusade, espalharam informações, procuraram jornalistas e pediram ajuda voluntária com os esforços paralelos de preservação de grupos da Equipe de Arquivo e do projeto Yahoo-Geddon. Enquanto isso, o comitê Portas Abertas da OTW (Organização para Obras Transformativas) criou o Projeto de Resgate do Yahoo Grupos para divulgar informações e ajudar responsáveis por moderação a arquivar seus grupos no Archive of Our Own – AO3 (Nosso Próprio Arquivo), e escreveu uma Carta Aberta à Verizon pedindo para adiarem a eliminação do conteúdo.

A velocidade e volume de pessoas envolvidas na organização do fandom teve um benefício secundário: conseguiram direcionar o foco da Equipe de Arquivo para a preservação de grupos de fandom públicos de uma forma que foi impossível para outras comunidades, assegurando maior representatividade da comunidade. Por sua vez, a equipe voluntária do Yahoo-Geddon apoiou os esforços de preservação mais amplos da Equipe de Arquivo, ajudando a resgatar grupos de culinária, de genealogia, em língua estrangeira e muitos outros.

Esses esforços não foram completamente em vão: a Verizon estendeu o prazo até 31 de janeiro de 2020; a Equipe de Arquivo conseguiu preservar mais de 1 milhão de grupos; a equipe do Yahoo-Geddon salvou cerca de 300 mil grupos com temática de fandom; centenas ou milhares a mais foram salvos por membros ou pela moderação alertada sobre a eliminação pelos nossos esforços coletivos; muitos outros grupos vão adicionar seus conteúdos de fãs ao AO3 como projetos do Open Doors (Portas Abertas)! Porém, isso é pouco em comparação com a estimativa de mais de 10 milhões de grupos que foram perdidos — equivalente aos estimados 90% dos filmes produzidos antes de 1929 que foram perdidos para sempre por ninguém ter se preocupado em preservá-los.

Conservação digital exige tempo e dinheiro, e as grandes companhias que atualmente armazenam muitos dos nossos dados não os valorizam o bastante para investir na sua preservação. Porém, isso é história — a nossa história — e vamos lutar para impedir que ela desapareça sem deixar rastros. Esperamos que você se junte a nós.


A OTW é uma organização sem fins lucrativos responsável por vários projetos, incluindo AO3, Fanlore, Portas Abertas, TWC e Ativismo Jurídico. Somos uma organização administrada por fãs, mantida por doações e com uma equipe inteiramente voluntária. Para mais informações sobre nós, visite o site da OTW. Saiba mais sobre a nossa equipe de Tradução, que traduziu esse post, na página do comitê de Tradução.

Post criado por convidadx da OTW: Henry Jenkins

De tempo em tempos a OTW (Organização para Obras Transformativas) trará posts escritos por convidadxs nas nossas contas de Notícias da OTW. Estes posts pretendem das espaço para uma perspectiva externa a respeito da OTW ou de aspectos do fandom onde nossos projetos podem estar presentes. Estas postagens expressam as opiniões pessoais dxs autorxs e não necessariamente refletem as visões da OTW ou constituem a política da OTW. Nós adoraríamos receber sugestões de fãs para posts no futuro, elas podem ser deixadas nos comentários desta publicação ou entrando em contato direto conosco.

Henry Jenkins é um dos pesquisadores mais conhecidos na área de estudos de mídia dedicado a pesquisas relacionadas ao fandom. Seu livro de 1992 Textual Poachers: Television Fans and Participatory Culture foi lido em todo o mundo e é visto como um dos textos essenciais da área de estudos de fãs. Quando pedimos que escrevesse este post para o nosso aniversário de dez anos, ele respondeu: “é uma honra ser convidado para desempenhar esse papel”. Henry fala conosco a respeito de fãs, estudantes e fandom.

Textual Poachers continua sendo lido por estudantes e pessoas curiosas a respeito de fãs e fandoms, mas você também já escreveu vários outros livros e artigos desde então. Na sua opinião, quais foram as maiores mudanças no fandom desde que você começou tanto como pesquisador quanto como participante?

Com relação ao fandom, o impacto das mídias digitais foi decisivo: expandindo o alcance do fandom, criando conexões mais profundas entre fãs ao redor do mundo; aumentando o velocidade de resposta dos fãs, que podem reagir em tempo real aos seus programas preferidos; criando um espaço onde obras de fãs são muito mais visíveis para a cultura como um todo (o que tem aspectos bons e ruins); permitindo que pessoas encontrem o caminho para o fandom cada vez mais jovens; e ampliando o impacto das ações de fãs ativistas para que suas vozes sejam ouvidas no que diz respeito ao cancelamento de programas. (Não é preciso ir além da recente e dramática mudança na sorte de Timeless).

Com relação ao estudo acadêmico do fandom, nós vimos o surgimento de um subcampo de pesquisa, com suas próprias conferências e organizações profissionais, suas próprias publicações (inclusive a Transformative Works and Cultures — TWC (Culturas e Obras Transformativas)), suas próprias linhas de editoriais, seus próprios cursos, e assim por diante. No próximo ano, ao menos quatro antologias acadêmicas serão publicadas dedicadas ao mapeamento do campo de estudos de fandom, refletindo o surgimento de uma nova geração de pesquisadores e representando inovações em diversas áreas, mas principalmente no que diz respeito a finalmente confrontar a questão racial.

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